Últimos restos de civilização cristã
Uma mensagem que circulou pela Internet chamou a atenção. Trata-se de um depoimento que descreve alguns hábitos familiares de outrora, ainda perfumados pelo que restava de civilização cristã, e hoje desaparecidos, submersos que foram pela enxurrada do paganismo moderno. Fala-nos das visitas que as famílias se faziam entre si, e que constituíam um costume ainda na década de 1950.
Não se trata de fato especificamente religioso. As visitas eram um pequeno acontecimento da vida social, sobretudo das classes média e operária. Mas vinham impregnadas daquele prazer inocente da família católica, como resto ainda vivo da civilização cristã outrora pujante, cujo desaparecimento faz Nossa Senhora chorar. Sou do tempo em que ainda se faziam visitas. Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho, porque a família toda iria visitar algum conhecido. Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente, à noite.
E os donos da casa recebiam alegres, a visita: ‘Vamos nos assentar, gente! Que surpresa agradável!’
A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre, e minha mãe de papo com a comadre. Eu e meus irmãos ficávamos assentados todos num mesmo sofá, entreolhando-nos e olhando a casa do tal compadre. Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro, casa singela e acolhedora. A nossa também era assim.
Também eram assim as visitas, singelas e acolhedoras. Tão acolhedoras, que era também costume servir um bom café aos visitantes. Como um anjo benfazejo, alguém lá da cozinha, geralmente uma das filhas, dizia: Gente, vem aqui pra dentro, que o café está na mesa.
O café era apenas uma parte: pães, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite... tudo sobre a mesa.
Pra que televisão? Pra que rua? Pra que droga? A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança... Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam.... era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade...
Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina. Ainda nos acenávamos. E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida. Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa. A mesma alegria se repetia. Quando iam embora, também ficávamos, a família toda, à porta. Olhávamos, olhávamos... até que sumissem no horizonte da noite.
O tempo passou, e me formei em solidão. Para isso tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, e-mail... Cada um na sua, e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa, e as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem mortos anônimos e possibilidades enterradas. Cemitério urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores.
Casas trancadas. Pra que abrir? O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos biscoitos, do leite...*
Luiz Gonzaga – Lembranças de minha infância e lembranças de muitas infâncias.
Belo texto, Luiz!
ResponderExcluirExcelentes lembranças, também. Uma ilustração perfeita da verdadeira vida em comunidade, baseadas na simplicidade e no amor de uns para com os outros.
Fica a impressão de que, em comunidade, a vida passa mais devagar, o que é uma dádiva nos tempos modernos. Como cristãos, além dos nossos já conhecidos pedidos (paz, saúde, proteção...) é urgente pedirmos a graça de desacelerar, de diminuirmos o ritmo a fim de que reparemos nas coisas simples, algumas delas a pura manifestação da presença de Deus no meio de nós.
A correria secular da vida moderna faz o atravessar de uma rua parecer um cruzar de um oceano, tamanho o distanciamento que adquirimos uns dos outros.
É isso, viver em comunidade para, dentre outras coisas, desacelerar.
Profeticamente, Almir Sater e Renato Teixeira criaram uma obra prima que só pode ser inspiração divina: "Ando devagar por que já tive pressa..."
Parabéns pelo blog! Os textos são verdadeiramente edificantes e renovam a fé deste mero cristão que tento ser todos os dias.
Abraços.